6 de outubro de 2008

Sobre a Escrita no Celular - Comentário de uma Leitora Especial

Acabo de receber da Ana Beatriz um comentário sobre Keitai Shosetsu Parte I.
Gostaria de compartilhar com vocês.
Oi Nélida. Que bom que gente como você ainda tem tempo de ler (e refletir sobre o que lê).
Com o tempo cada vez mais escasso, não dá nem tempo de ler o que, em outros tempos, chamaria minha atenção.
Ontem, depois de alguns meses, consegui ir a uma livraria. Compramos quatro livros: dois para o meu marido, um para a Clara e outro para a Giulia. Nenhum para mim: como estou com quatro livros me esperando, além de inúmeros artigos espalhados na minha mesa aguardando leitura, resolvi tentar concentrar minha atenção neles antes que eles desistam de mim!
O que mais me chamou a atenção foi o número de frequentadores da livraria (de todas as faixas etárias, diga-se de passagem) em um domingo chuvoso: estava lotada.
A proliferação de títulos e editoras é impressionante. É preciso ter público leitor para que todos livreiros e editoras sobrevivam. Isso quer dizer que tudo que se publica é de qualidade? Claro que não, mas as pessoas estão lendo, e isso importa.
Portanto, não posso entrar aqui no mérito da qualidade dos chamados romances de celular. Não conheço, não posso julgar. Mas se funcionam como uma forma de estimular a leitura, ótimo.
O que a nossa geração, e as anteriores, tem dificudade de entender é que o paradigma da leitura mudou. Eu, particularmente, tive e tenho dificuldade de trabalhar o texto na tela do computador por motivo simples (além da falta que me faz segurar o livro, a revista, o papel e tê-los como objetos concretos e dotados de uma certa permanência): a tela rola de baixo para cima e o olho humano está acostumado ao movimento inverso, de cima para baixo, quando diante do texto em papel. Acrescente-se a isso a presbiopia, uma praga para quem já passou dos 40 (antes até, para quem vive forçando a vista diante da tela do computador) e o tamanho reduzido das teclas do celular quando se contempla a possibilidade de interagir com o texto "vivo", e pronto: teremos excelentes motivos para cair de pau nos romances de celular.
É preciso encarar esses fenômenos exatamente como são - frutos do seu tempo e hora. Diálogos e parágrafos curtos são típicos do momento que vivemos - o tempo das respostas imediatas - ainda que o leitmotif dos romances seja o mesmo.
Qualquer um que já tenha visto um adolescente teclar uma mensagem de texto no celular sabe ao que me refiro. Enquanto eu cato milho no teclado do celular, minha filha já enviou e respondeu pelo menos três mensagens. Posso dizer com isso que temo que o fenômeno vá prejudicar a qualidade da linguagem como a conhecemos hoje? Claro que sim. Mas a linguagem evolui com seu tempo. É torcer para não perder o trem da evolução.
Beijo, Ana Beatriz

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