22 de novembro de 2008

A Nova Velha Biblioteca de Alexandria - Questões Brasileiras

(Fotos do interior da Biblioteca do Congresso Americano e da nova Biblioteca de Alexandria)
Ainda na época de universitária, durante a minha graduação, e isso faz um tempinho, ouvi o Diretor do Departamento Nacional do Livro, àquela época, durante uma conferência no RDC da PUC-Rio, dizer que com o desenvolvimento das novas mídias digitais o livro impresso iria sucumbir. Confesso, fiquei chocada, estarrecida. Logo o Diretor do DNL dizer publicamente uma coisas dessas? Como? Tempos depois, não muitos, estagiei na Fundação Biblioteca Nacional. Encontrei o mesmo diretor, com o mesmo discurso. Posso confessar uma coisa? Nunca acreditei e não acredito nessa profecia!
Estamos num momento da história em que podemos contar com uma quantidade enorme, infindável de ferramentas que, numa primeira impressão, parece deslocar o lugar do livro impresso, o papel, aquele que a gente gosta de segurar com as mãos e sentir o cheiro, para a sombra e escuridão. Mas, tenho percebido, por um outro lado, que essas mídias são meios para que os jovens, principalmente, sejam seduzidos pela palavra e pelo texto. Muitos, em seguida, se transformam em leitores e frequentadores de bibliotecas e livrarias.
Keila Vieira, do blog Talhos e Retalhos comentou: "O único medo que tenho da digitalização é o aumento da possibilidade de perda de todo esse conteúdo. Pois, ao lado desse pensamento, muitas vezes, segue-se a idéia de desuso do material impresso que pode ser simplesmente jogado no lixo enquanto a possibilidade de perda de material digital é muito maior. O que acontece em muitas bibliotecas mundiais. Acho que devemos ficar atentos sobre as medidas de conservação que caminham juntas".
Eu acho que devemos ter a atenção sobre o arquivo impresso. Eu, aliás, tenho certeza que muitos organizadores de bibliotecas e acervos virtuais estão preocupados com isso. Vou citar dois exemplos rápidos:
1) tenho uma amiga, minha querida Teresa Cristina Montero, especialista em Clarice Lispector, que fez parte do seu doutorado no Canadá, pois lá ela encontrou um acervo de Clarice que no Brasil não há. Pasmem!
2) a Biblioteca do Congresso Americano, a maior biblioteca do mundo, possui acervo físico de mais de 130 milhões de itens diferentes em 480 idiomas, envia seus funcionários aos países para comprar tais volumes e aprimorar acervo - trabalhei numa livraria, não qualquer livraria posso dizer, que recebia esses visitantes especiais. E sempre foi um prazer recebê-los, pois sabia que o acervo de cultura brasileira estava assegurado para a humanidade.
Na minha opinião, esses exemplos demonstram que não há integralmente a política do descarte do livro impresso. Na Europa eu realmente não sei como funciona. Mas, eu durmo mais tranquila.
Uma outra questão que sempre me vem a mente é "Que jovem leitor é esse?"
Conheço muitos jovens que não passam por esse conflito livro físico e livro virtual, pois já foram educados para a leitura, que já tem o hábito. É sempre uma surpresa boa. Outro dia, eu estava na praia de Ipanema e o sobrinho de uma amiga comentava o livro que estava lendo. Foi uma maravilha ouvi-lo falar sobre as impressões de leitura. Isso é maravilhoso de ouvir. Ele teve acesso. Ele foi educado. Na família, com certeza, há indivíduos que tiveram a atenção e preocupação em um dia estender-lhe uma brochura, um livro. Mas se o jovem não tiver algum incentivo, como vai descobrir o prazer de ler? Vai depender das novas mídias.
Por outro lado, nas minhas viagens de mobilização social pelo Brasil, percebi que as realidades são várias. Há jovens que, infelizmente, não sabem ler; que infelizmente não tem o que comer; que infelizmente não possuem família ou alguém que possa lhes estender a mão e dar um livro ou ensinar-lhes a ler.
Há projetos implementados no nordeste do Brasil, onde um telecentro chega antes do telefone público. Locais onde não há papel, onde não há água, onde não há comida. Mas a internet chega como uma janela de possibilidades para o mundo. Essa janela incentiva o indivíduo a melhor as condições de vida da sua comunidade. A internet traz informação, conhecimento e saber. E muitos jovens desses locais lêem e pesquisam na tela de um computador. É uma forma de desenvolver a cidadania, de promover a leitura do mundo.
Mas, com a experiência dos anos, tenho aprendido e visto que há pessoas que gostam de ler e outras que não gostam de ler. Há pessoas que comem carne e outras não. Há pessoas que gostam de azul e não de amarelo.
A nova velha Biblioteca de Alexandria está aí. Sempre estará.
Os velhos novos leitores,editores e livreiros também.
As crises acontecerão.
O importante é manter o equilíbrio e quando puder não deixe de estender ou contar uma história para quem estiver ao seu lado. Esse livro, essa história circulará e a história não morrerá. Felizmente.
PS 1: Acredita-se que a Biblioteca de Alexandria tenha armazenado mais de 400.000 rolos de papirus.
PS2: Não deixem de ler o romance O Historiador, de Elizabeth Kostova. Abstraiam a informação história de "vampiro". É um dos livros mais apaixonantes que já li sobre o acervo mundial de livros.
Boa leitura para todos, sempre!

Nenhum comentário: