29 de janeiro de 2009

Conforme prometido, depoimento de Patricia Lino sobre o projeto Clarice Lispector em Portugal

Conforme prometido, trazemos o depoimento de Patricia Lino, autora do Projeto Clarice Lispector, para dar um depoimento sobre a recepção dos transeuntes ao seu pedido de tirar uma foto com o retrato de Clarice Lispector (feito pela própria Patricia). Lector in Fabula agradece Patricia Lino pela gentileza em dar seu depoimento.
Nelida, aqui vai o depoimento:"Não é todos os dias que alguém nos aparece, pedindo-nos que segure um rosto de uma mulher, a fim de nos fotografar. E cá entre nós, é bom ser-se esse alguém. Ao andar pelas ruas - e quem diz ruas, que diga escolas, faculdades, cafés, museus e afins - foram muitas as coisas que aprendi e as quero ainda aprender. Porque não é dentro de casa que o vou fazer. A maioria delas, das pessoas que falo, teve até hoje, uma reacção positiva. O positivismo significa aqui o jeito prestável, a boa recepção de ideias, o desejo de querer saber mais. E porquê levar-lhes um rosto, porquê pedir-lhes que o segurem? É tudo uma questão de experimentarmos e começarmos por confessar que assim que o seguramos entre mãos, perguntamos instanteanamente a quem ele pertence. Quem afinal está ali. A resposta é Lispector, Clarice Lispector. Segue-se então a pergunta, mas quem é Clarice Lispector?, diz-se, é uma das melhores escritoras na história da literatura brasileira, ah, nunca ouvi falar, devia ler, que livros me aconselhas, tem um papel, sim sim, então deixe-me escrever-lhe aqui. E escreve-se. Talvez a melhor recompensa, Nelida, seja receber um abraço e escutar, obrigada Patrícia, obrigada por me trazeres Clarice. E se não forem essas as palavras serão outras que me dirão, já vou no terceiro livro Patrícia, não consigo mais parar, e é tão bom não parar, não parar aqui, não pares então. Nunca pares.Daí, ser enriquecedor ser-se esse alguém que nos interpela de manhã, aquando nos digirimos para o trabalho, de tarde quando nos preparámos para mais uma aula, ao fim dela, quando queremos chegar até casa. Não se esconda que se ouvem também respostas negativas, - pouquíssimas, até ao dia de hoje - no entanto, cheguei até a fugir de uma senhora, às portas do mercado do Bolhão, bonito mercado aliás, mas com tudo se aprende, Nelida, e se faz um pouco de exercício pelas ruas da cidade: sabe bem usar as pernas, rir enquanto se as usa, e se segurar os tantos rostos de Clarice enquanto se corre. O Projecto Clarice não é só um Projecto que se realiza para uma cadeira na Faculdade, o Projecto Clarice pretende levar às pessoas aquilo que eu penso, vejo, cheiro, sinto e me arde, aquando leio Lispector. E isso não é fácil, mas também não é impossível. Porque eu penso, vejo, cheiro, sinto e ardo. Olhá lá, mas porque raio andas tu com tantas Clarices na mão?, não é só na mão, onde é, é na cabeça. Em muitos sítios, portanto, em muitos sítios, assim."
Patrícia Lino a 29 de Janeiro de 2009.

6 comentários:

Marcos Miorinni disse...

Olá Nelida, parabéns pelo post e principalmente pelo Projecto Clarice,
que o mesmo expanda suas asas para além da faculdade e alcance distantes horizontes.

Abraço das Letras
Marcos Miorinni

vida cotidiana disse...

Excelente post, que projeto interessante, cheio que energia de contagiar, ensinar e aprender, lindo! Deveriamos ser sempre assim, cheios de vontade de algo mais. bjs

Nelida Capela disse...

O Projeto da Patricia Lino é inspirador!

Patrícia Lino disse...

Muito obrigada, Nelida.
Muito obrigada.

Um abraço,
Patrícia

Nelida Capela disse...

Seja sempre bem-vinda, Patricia. Portugal mora no meu coração tricolor: luso, argentino e brasileiro. beijos.

Silvestre Gavinha disse...

Muito legal mesmo. O post, o projeto, o teu jeito de contar Patricia.
Muito, muito legal teu projeto e o teu jeito de lidar com a nossa fada-bruxa-maga maravilhosa.
Imagino as histórias que estás tirando de tudo isso.

Nelida teu blog é uma delícia com todos esses depoimentos e coisas sobre os livros.

Com blogs assim a gente fica mais louquinha ainda para ler e ler e ler... e fica louca com o tempo e com as coisas que se tem que fazer quando se queria cada vez mais ler e ler e ler....
Beijão
Marie