7 de janeiro de 2009

Saiu no The New York Times e O Globo Publicou

Web, um mercado informal de livros - Editoras e livrarias entram em crise com usuários vendendo volumes na rede O Globo / 05Jan2009 As editoras andam cheias de maus pressentimentos nestes tempos de crise econômica. O último Natal provavelmente foi um dos piores em décadas para os livros. Não por acaso, o setor editorial vem fazendo cortes e demissões. A editora Houghton Miffling Harcourt anunciou que não compraria novos originais - é como se um açougue anunciasse que não mais compraria carne fresca. As livrarias e sebos também andam mal das pernas. O maior grupo independente de Washington, o Olsson's, foi à falência e fechou em setembro. Uma das mais antigas livrarias da Filadélfia, a Robin's, fecha este mês. A Borders vai igualmente mal, e a grande Powell's de Portland apresentou vendas tão fracas que encorajou os empregados a tirarem licenças não-remuneradas. Mas a culpa não é dos suspeitos de sempre, como a competição acirrada pelo tempo escasso do leitor ou nossa falta de concentração cada vez maior. O que está mexendo com a indústria dos livros é a mudança dos hábitos dos próprios leitores - gente como eu, que usa cada vez mais a internet para comprar obras e, depois que lê, as revende. Veja bem: isso não tem nada a ver com a Amazon oferecendo montes de livros com desconto, um fator presente nessa indústria há uma década, mas com o advento de uma rede mundial de amadores que vendem livros diretamente de seus próprios lares, ou, se são preguiçosos como eu, em parceria com um negociante web que faz todo o trabalho por uma parte dos lucros. Essa turma consegue seus livros com amigos, em bazares e vendas de quintal, centros de reciclagem e em suas próprias prateleiras. (Eu acabei de comprar um de um cara cujo codinome online era Clif Esvazia Seu Armário.) Alguns vendem um livro por poucos centavos, embora a maioria busque pelo menos um dólar por obra. Esse crescente mercado está adquirindo massa e virando um problema sério para a indústria. Para os leitores e colecionadores, esses revendedores oferecem um grande serviço. Por exemplo, é uma era de ouro para quem ama volumes antigos. Cada vez mais obras são encontradas com menor esforço e por menos dinheiro. Uma ferramenta de busca como a ViaLibri.net pode achar 20 mil vendedores oferecendo dezenas de milhões de livros quase novos, usados ou raros. O resultado é que, na hora de comprar um livro, começamos a nos perguntar coisas como: Por esse preço, realmente quero ler isto? Quanto quero pagar, e aonde quero que o dinheiro vá? Para minha comunidade, através de uma livraria? Para a editora? Para o autor? Em tese, quero apoiar todo mundo, mas na prática quero poupar meu dinheiro... Veja um exemplo de como "provoco destruição" inadvertidamente: eu estava lendo "Sylvia", relato do mestre dos contos Leonard Michaels sobre sua instável primeira esposa. Pesquisando material sobre Michaels, descobri que uma amiga sua publicara um ensaio sobre ele pela editora Pantheon. Saía por US$ 14 numa livraria, mas havia dúzias de cópias oferecidas na grande rede a um centavo. Acabei comprando uma edição de capa dura por 25 centavos, de uma tal Heather Blue. Desembolsei alguns dólares pelo envio. O livro era praticamente novo. Nem a livraria, nem o autor, nem a editora ganharam um tostão nessa compra. (A editora, aliás, pertence ao grupo Random House, que anunciou em dezembro a redução de suas divisões de cinco para três, a fim de cortar gastos.) - Comprar livros online não é somente moralmente dúbio, mas trágico - afirma Andy Ross, ex-dono da livraria Cody's, em Berkeley, cuja última loja fechou em junho passado. - Há muitas consequências para as comunidades, ainda que não sejam intencionais. Ele percebeu que a livraria estava condenada quando não conseguiu vender uma única edição da "Crítica da razão pura", de Kant, sempre uma compra certa por parte de estudantes universitários. As vendas dos clássicos e afins sempre foram o motor financeiro do setor, permitindo às editoras apostar em novos autores. Esse modelo, contudo, está claramente se desfazendo. Michael Barnard, dono de uma livraria em Danville, Califórnia, foi ainda mais crítico. Disse-me que eu estava pegando o trabalho de um autor e privandoo de sua renda, e que eu iria me arrepender de m e u s a t o s quando todas as livrarias físicas acabassem. Editores como Dan Frank, da Pantheon, afirmam que o crescimento desses revendedores online significa que não há mais preço definido para um livro. A própria autora do ensaio que comprei, Wendy Lesser, embora tenha ficado surpresa com o preço que paguei ("Só 25 centavos? Só isso?"), foi mais filosófica. - Pelo menos assim ganhei um leitor, apesar de não ter ganhado dinheiro - disse. - Se você tivesse procurado pelo livro apenas na livraria, talvez não o tivesse achado. Com a internet, nada se perde. Esta é a boa notícia, e a má notícia também. Finalmente, a mulher que me vendeu o livro, Heather Mash (este é seu nome verdadeiro), comentou que nunca teve a intenção de subverter o negócio literário. Como a maioria dos revendedores, tinha livros demais e queria mais dinheiro para comprar outros livros. - Prefiro vender um livro por um centavo e deixar alguém feliz a mantêlo em casa, juntando poeira - afirma Heather.

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