16 de janeiro de 2009

Um trecho inédito de Margarida Rebelo Pinto

Gosto de escritores portugueses, pena que conheça a tão poucos...Inês Pedrosa (que não tive coragem de ler), Margarida Rebelo Pinto, Augustina Bessa Luís, Manuel Alegre, José de Saramago, Lídia Jorge, Miguel Torga, Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Eça de Queiroz, Mariana Alcoforado (quem não leu Cartas Portuguesas?), só para mencionar alguns.

Adoro Margarida Rebelo Pinto, pois sua prosa me leva a muitas reflexões, algumas sem conclusões óbvias, como numa rua sem saída, mas que nos fazem pensar, e outras que tornam-se cúmplices dos pensamentos mais intimos do ser (ahhh, alguém também pensou nisso, pois não estou louca!). Acho que ela está para a nossa Martha Medeiros, com um up típico europeu, típico português - e que faz toda a diferença - não me crucifiquem pelo comentário.

Aqui no Brasil, a editora Record publicou a trilogia que inclui os romances Sei Lá(1999), Não há Coincidências(2000) e Alma de Pássaro(2002) - datas de publicação em Portugal, aqui chegou por volta de 2004, se não me falha a memória.

Sempre notei que as pessoas de Portugal e de Brasil falavam de Margarida com certo receio em relação ao valor da obra. Descobri de onde vem esse receio, é de uma polêmica com João Pedro George, que em Couves e Alforrecas dissertava sobre a deficiência de Margarida enquanto escritora. Desculpe, mas só em Portugal para isso acontecer. Mas, convenhamos, quais são os critérios para um bom ou mau romance? Acho que sempre esquecem dos leitores nesses casos. Seja como for, eu sempre apostei e indiquei para os clientes da Livraria Timbre e os leitores nunca se arrependeram de tê-los lido, nem nunca arremessaram o livro na minha cabeça, pois eu sempre dizia "se não gostar do livro, volte aqui e me arremesse na cabeça à vontade" - confesso, isso aconteceu uma única uma vez.

Biografia:Margarida Rebelo Pinto licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas na Universidade Clássica de Lisboa e iniciou a atividade de jornalista em várias publicações como: O Independente, Se7e, Marie Claire e Diário de Notícias. Escreveu seis romances, quatro livros de crônicas, um livro para crianças e uma biografia. O seu primeiro livro, Sei lá, publicado em 1999, foi um dos maiores sucessos de vendas em Portugal, atingindo números de vendas pouco usuais para o país. Mais tarde, com os seus títulos seguintes, rapidamente alcançou um êxito similar. Atualmente, as suas obras estão traduzidas na Espanha, Brasil, Países Baixos, Bélgica, Alemanha e Lituânia. Margarida dedicou-se também ao cinema, sendo a autora do filme Um Passeio no Parque e, mais recentemente, às peças de teatro. (Fonte: Wikipedia)
Visitem o site de Margarida Rebelo Pinto, lá você encontrará outros textos disponíveis. Detalhe, o link já está aqui, na coluna "Mar de Histórias".
O texto abaixo fala de árvores e de nós, humanos, e da qualidade do texto não há o que duvidar! Como alguns leitores sabem, amo árvores, aproveitem e leiam depois o post sobre o livro A Árvore Generosa, que publiquei em dezembro de 2008.

Dar é ser 23 de Março de 2005

O fruto é cego. É a árvore que vê. A árvore sabe que o fruto vai nascer. Todos os anos a árvore carrega os frutos até que caiam, até que alguém os vá arrancar. E sem os seus filhos, a árvore prepara-se para dar mais filhos no ano seguinte. A árvore cresce na solidão. Fala com a terra, mas ninguém ouve. Conversa com os pássaros, mas só eles entendem. Discute com as outras árvores, mas quase nem se percebe, apenas o som tranquilo a que chamamos vento. A árvore já é árvore ainda antes de nascer. Sabe que vai ser grande, que vai passar a altura dos telhados, que vai assistir à partida daqueles que mais se ama, à chegada de outros, cujo regresso era impensável. A árvore cresce no silêncio, com ajuda do sol, às vezes fustigada pelo frio, às vezes maltratada pelo homem. E aguenta tudo. Isto é, se não quiser morrer. Porque as árvores são como as pessoas: se elas quiserem morrer, nada as prenderá a este mundo. Mesmo que as raízes nunca sejam arrancadas, a árvore escolhe outra existência, parte-se, parte e desiste, como nós.O fruto é cego. Nasce pequeno, frágil, torto. Depois arredonda, cresce, convence-se que é gente, pendura-se no tempo, dança com o vento, pensa que vai ser feliz, brinca com o sol. E um dia cai. Fica a árvore, fica o medo, fica a noção incontornável da mudança, da insegurança, de tudo o que é hoje verdade, amanhã desapareceu.Mas o fruto não sofre, porque não vê e como não vê, não sabe nada. A árvore assiste. Tranquila, porque conhece o universo e as suas regras. E sabe que a primeira regra é que as regras mudam. E muda o tempo. E muda o modo. E muda o mundo. A árvore assiste a tudo, serena, como uma sábia, como uma velha índia, como uma avó. A árvore esconde o mundo no tronco e dá comida nos ramos. A árvore sabe que quanto mais se dá mais se tem, que dar é a melhor forma de viver, que dar é ser. A árvore espera que o mundo melhore, sem esperar nada dos homens. E cala a dor, a tristeza, a solidão, a paixão nunca vivida de um abraço. E quando está cansada, aquece os homens e consome-se, gloriosa e bela, num festival sublime de fogo e cor. E dança para nós, perfeita nos seus derradeiros momentos. A vida é bela enquanto nos consome. A vida é bela mesmo antes do nascimento. A vida é bela porque é cruel, porque é curta, porque é imprevisível. E a árvore sabe que faz parte da vida, que pode guiar os homens ou os frutos, por isso por isso não desiste, por isso fica.

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