5 de fevereiro de 2009

A leitura pode ser um vício "impunido"

Wilson Martins, crítico literário, JB Online
30/01/2009
RIO - A infância, com os livros coloridos, e logo a adolescência, é a idade ideal para incutir nas crianças o vício da leitura – vício impunido, como o chamava Valery Larbaud. A imprensa, nas palavras do papa Gregório XVI, é uma arte execranda e detestável, ou se preferirmos a linguagem litúrgica haec detestabilis atque execranda, condenação que a acompanhou desde as origens. O que, aliás, continua até hoje: viciado irrecuperável, Annibal Augusto Gama refere que, “há cerca de sessenta anos, no pátio do Colégio dos Maristas, em Franca, os irmãos mandavam queimar uma boa centena de livros tidos como deletérios, entre eles alguns de Monteiro Lobato”, incinerado simbolicamente através dos tempos. A meiga Cecília Meireles qualificava de “detestáveis” os seus personagens, retomando, talvez sem querer, o vocabulário papal, enquanto os seus livros eram proibidos durante o Estado Novo de 1937: “o procurador Dr. Clóvis Kruel de Morais afirmava que o texto [de Peter Pan] era perigoso e alimentava nos espíritos infantis, 'injustificavelmente', um sentimento errôneo quanto ao governo do país' e 'incutia às crianças brasileiras a nossa inferioridade, desde o ambiente em que são colocadas até os mimos que lhes dão'” (Annibal Augusto Gama. Os diamantes de Ofir. Ribeirão Preto, SP: Funpec, 2008 e Marisa Lajolo/ João Luís Ceccantini, orgs. Monteiro Lobato de livro a livro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008). Assim, a leitura pode ser um vício impunido e escondido, como todos os vícios, não sendo poucas as punições que a escrita e seus autores vieram sofrendo, na fogueira, nas prisões e no exílio, “desde que há homens e que escrevem”, para repetir as palavras de La Bruyère. É verdade que o procurador Kruel tinha razão: é nos mais tenros anos que devemos expor as crianças ao vício da leitura. Foi o que aconteceu com Annibal Augusto Gama: “O amor dos livros nasceu em mim quando, ainda menino, mal conseguia ler as palavras impressas. Daí para a frente, tive-os sempre comigo”. Contudo, é preciso evitar o irreparável erro pedagógico praticado nas escolas com a obstinação dos bens intencionais, que consiste em tentar despertar o “amor à leitura” com Camões e Machado de Assis impostos às crianças e adolescentes mentalmente imaturos. Os chamados “grandes escritores” só serão aceitos por inteligências literariamente educadas: “Há livros que devem ser lidos na juventude, outros na maturidade, e ainda outros na velhice. Cada um exige a época própria do leitor” (Annibal Augusto Gama). Livros que despertam o amor e, logo mais, o vício da leitura são, na adolescência, as novelas policiais e as narrativas de aventuras, que estimulam a inteligência e a ginástica mental, pondo o espírito a trabalhar, não os que o adormecem: “Quem teve a felicidade, em sua juventude, de ler essas novelas, descobrir o mundo através delas, debruçando-se também sobre a obra de Júlio Verne, sabe do que se trata”. É a biblioteca imaginária da coleção Terramarear, da Coleção Amarela e dos livros de Conan Doyle, os Negreiros da Jamaica, As minas de Salomão (o que hoje já se sabe não ter sido escrito por Eça de Queiroz), mais Jack London e Mayne Reid, sem esquecer Emílio Salgari, cujo sobrenome os nativos de sua província natal pronunciam como proparoxítono. Em lugar de supor que adolescentes de todas as idades (inclusive a mental) interessam-se por Dom Casmurro e conseguem entendê-lo, será possível introduzir José de Alencar pelas Minas de prata, não pelo Guarani. A verdade é que cada livro não é um texto, mas um palimpsesto, no qual lemos ou relemos em filigrana todas as nossas leituras anteriores. Não há leituras definitivas: “A leitura de um livro antes lido e relido, e que, anos mais tarde você torna a pegar e a lê-lo de novo, da primeira à última página, esmoendo-o, analisando com exatidão cada frase, compreendendo tudo, interpretando cada passagem, descobrindo o que permanecia obscuro ou duvidoso, de tal sorte que, ao cabo, possa afirmar 'este eu assimilei inteiramente, não há nada mais, em todo ele, que eu não saiba'”. O verdadeiro leitor não tem “livro único”, mais importante que os demais, e, por isso, não pode responder a essa pergunta dos jornalistas. E, muito menos, o livro folclórico que levaria para a ilha deserta, lugar, aliás, em que se pode pensar em tudo, menos na leitura. Nesse caso, Annibal Augusto Gama repete a resposta conhecida: “Atirados na ilha, dificilmente teremos ânimo para leituras, devendo procurar, antes de mais nada, os paus para fazer um barco que nos leve de volta (...)”. O único livro a levar para a ilha é o manual de fabricação de canoas; os não-leitores denunciam-se desde logo ao declarar que levariam a Divina comédia ou as obras completas de Shakespeare, que provavelmente jamais haviam lido.

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