3 de fevereiro de 2009

Unitas Multiplex indica As Ondas, de Virgínia Woolf

É com aprumo e elegância que quero falar de Virgínia Woolf. E tecer comentários acerca de sua - a meu ver - vislumbrosa, substancial mas porosa, belíssima obra-prima As Ondas - seu sexto romance, publicado em 1931. A edição que li, da Nova Fronteira, tem a tradução feita por Lya Luft.A ocasião tempestiva em que me encontro, férias universitárias e momentaneamente desempregada em período de recolocação profissional, me deixa à deriva, um tanto quanto ociosa. Entretanto favoreceu para eu assimilar aquelas delicadas páginas à maneira mais à vontade e gostosa possível: deixando a própria trama falar comigo, de gole em gole, ela embriagando-me. Levei mais de duas semanas apreciando-a na sofreguidão, entre o intervalo de tardes enchuvaradas ácidas e prévias de noites abafadas, tão costumeiras do verão em Curitiba. E se valeu a pena?! Nossa!Apressadamente, quem só ler esta minha opinião literária sem sentir a intensidade do livro, poderá facilmente achar que estou exagerando na sua contemplação. Porém, para quem já me conhece um pouco mais, sabe que costumo selecionar bastante o que vou ler, e que, se expresso efusivamente algum juízo de algo, é porque gostei e muito, com probabilidade alta de ser por completo. E de lambuja, faço assim uma indicação e uma contribuição de mais algumas interpretações a uma obra já mesmo considerada interessante por escritores fenomenais e leitores assíduos da boa literatura européia, possivelmente premiada e reconhecida nas Academias de Letras e presente no discurso de outras comunidades de plantão... que versam secretamente e destrincham mil significados e sentidos à parágrafos alheios!Na sua própria contra-capa, a comentarista define As Ondas como uma narrativa musical, parecida com a Arte da Fuga de Bach e as sinfonias de Mozart: uma meditação sobre a vida, reflexões inusitadas a partir de imensos solilóquios sobre a experiência, a solidão, a maturidade e o isolamento humano. Em suma, Virgínia registrou magistralmente monólogos interiores de seis personagens que se intercruzam: Neville, Jinny, Rhoda, Susan, Louis e Bernard. "Mas o assunto não existe: eles não chegam a viver uma história". E é isso que, de súbito, não me motivou inicialmente - essa falta do fio narrativo que liga o começo, o meio e o fim. Mas apenas precocemente. As vozes parecem ora articuladas, ora incoerentes entre si - bem como a mente humana. É daqueles livros que a pausa inicial após as primeiras 25 páginas, quase intragáveis e prejudiciais à cativação de sua continuação, e mais o desfecho e a síntese do todo são imprescindíveis, vêm carecidas, suplicantes, e fazem toda a diferença. Para compreendê-lo, vale transliterar e estar atento a descrição acanhada da suas orelhas / abas:Os personagens... "Estão imersos em seus monólogos, no âmago de suas sensações mais íntimas; para eles, o Mundo - descrito de forma verdadeiramente esplendorosa, como nunca Mrs. Woolf fizera - é vivido como o lugar das impossibilidades de serem aquilo que eles gostariam de ser. O Mundo e a sua História, aqui, são a negação objetiva da realização de cada personagem. Às imagens de uma natureza fulgurante corresponde uma história feita de fraude, medo e opressão. Entre uma e outra, as seis vozes emitem sons que não conseguem encontrar seu ponto de repouso: o passado não os consola, o presente os horroriza, e o futuro permanece, por excelência, o desconhecido". Eles estão à procura de si, em meio a ruídos de uma sociedade em decomposição.
(Sil Drabeski publicou três posts sobre As Ondas, aqui utilizamos fragmento do primeiro post)

2 comentários:

Sil Drabeski disse...

Ehh!! Que bom ver parte da minha publicação aqui!

Thanks! ;D

Nelida Capela disse...

Lector in Fabula é que agradece!