6 de maio de 2009

Fragmento de O Livro de Cozinha de Alice B. Toklas

"Nos primeiros tempos, cujas lembranças estão espalhadas ao longo de meus capítulos, se algum amigo indulgente, nessa ou naquela noite de domingo ou em alguma ocasião festiva, dissesse que minha cozinha não estava má, eu não me enganava nem ficava envaidecida a ponto de querer ou gostar de cozinhar. A única maneira de aprender a cozinhar é cozinhando, e para mim, como para muitos outros, de súbito e de modo inesperado, isso se tornou uma necessidade desagradável, quando veio a guerra, seguida da Ocupação. Foi nessas condições, de racionamento e carência, que aprendi não apenas a cozinhar seriamente, mas também a comprar comida num mercado restrito e não gastar muito tempo com isso, uma vez que há tantas outras coisas importantes e mais divertidas para se fazer. Foi nessa hora que o assassinato na cozinha começou. A primeira vítima foi uma carpa vivíssima, trazida à cozinha numa cesta coberta, da qual nada poderia escapar." (p. 58 - edição da Companhia das Letras - 1996)
PS: Fragmento para Luize Valente, que durante um sábado gastronômico na casa de Rita Braune, em Rio Bonito de Lumiar, me fez lembrar do livro de cozinha da companheira de Gertrude Stein. Merci, Luize!

3 comentários:

vida cotidiana disse...

Hummm, gostei. Adoro livros que misturam a vida com situações corriqueiras como eventos na cozinha

Nelida Capela disse...

Pois é Ana, a Alice aproveitou o livro de cozinha para falar da época, da guerra, do mundo e de Gertrude Stein, é claro!

luize disse...

"Faltou falar das bruschettas, dos legumes grelhados, da massinha com ricota, deliciosas entradas que abriram o apetite para o feijão no fogão de lenha, com farinha paraense, de uma tarde coroada com finas fatias caramelizadas de maçã! Aromas e gostos que inspiraram um papo tão agradável sobre dois assuntos que andam juntos: comida e livros, alimentos do corpo e da alma!"