11 de julho de 2009

Fragmentos de A Morte do Gourmet

Minha querida amiga leonina, Ana Perin, que veio de Nova Prata para o Rio de Janeiro há muito tempo, carioca-gaucha ou gaucha-carioca, para nos brindar com uma cultura rica e cheia de magia, fez o favor de furar a minha fila de livros com A Morte do Gourmet - ela sabe que gosto disso. O livro é a superação da descrição de sentimentos, sensações, memórias e conhecimento que a jovem escritora francesa, Muriel Barbery, já escreveu. É do tipo de livro que tem em suas frases a ornamentação espartana com a magia grega - como explicar isso? Só entrando no texto, sorvendo-o tal como a completa descrição do sashimi. Entre uma e outra imagem, fragmentos para incentivar a leitura.
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A primeira vez foi no Marquet. É preciso ter visto aquilo, é preciso ter visto ao menos uma vez na vida aquela grande fera tomando posse da sala, aquela majestade leonina, aquele meneio de cabeça real para saudar o maître, como um frequentador assíduo, como um hóspede de prestígio, como o proprietário. Ele fica em pé, quase no meio da sala, conversa com Marquet, que acaba de sair da cozinha, de sua toca, põe a mão em seu ombro enquanto se encaminham para a mesa dele. (p.25)
Foi um deslumbramento.O que transpôs assim a barreira de meus dentes não era matéria nem água, apenas uma substância intermediária que, de uma, guardada a presença, a consistência que resiste ao nada, e da outra tomara empréstimo a fluidez e o macio milagrosos. O verdadeiro sashimi não se morde, e tampouco derrete na língua. Convida a uma mastigação lenta e flexível, que não tem como fim fazer o alimento mudar de natureza mas somente saborear sua aérea molecieza. (p.53)

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