25 de fevereiro de 2012

Terminei A Visita Cruel do Tempo


Como vocês podem ver pela página acima, A Visita Cruel do Tempo não é um livro comum. Não foi à toa que levou o Pulitzer 2011 em ficção. Sua narrativa parece circular, vai levando-nos ao centro...do tempo. Mas, não é um livro que assuste leitores que estejam abertos à novas experiências. Não é hermético, nem chato. O capítulo 8, é muito engraçado, na minha opinião; é também o capítulo aonde aparece a Lulu, minha personagem preferida - que reaparece no final, bem ao estilo dela. Eu li em dois dias, após terminar a leitura de Os Anos de Fartura - China 2013. Marquei várias páginas, pois as questões do tempo e da vida interessam a todos nós, e a literatura permite-se fazer essas intervenções em nossas leituras. No capítulo 3, por exemplo, há uma divisão estrutural bárbara de papéis desempenhados por cada indivíduo num grupo de pessoas que está na África, achei muito interessante. Num outro capítulo, a autora brinca conosco ao colocar um personagem que não sabemos quem é. Sobre o capítulo que aparece em transparências de PPT, faz todo o sentido dom mundo. Há gente que se apaixonou pelo livro - como eu - e há aqueles que não gostaram muito. Só permitindo A Visita Cruel do Tempo para você saber se vai gostar ou não. Permita-se essa leitura.

23 de fevereiro de 2012

Histórias de Livreiros (4)


Muitas vezes começa assim:
- Ah, deve ser bom trabalhar em livraria. Vocês ficam lendo o dia inteiro, não é?
Eu olho para  eles e tenho vontade de dizer:
- Trabalhar em livraria é muito bom, mas a fantasia de passar o dia inteiro lendo é algo muito romântico...
Mas faço cara de paisagem e digo:
-É muito bom trabalhar em livraria sim. A gente está bem perto dos livros e vê de antemão o que está sendo lançado no mercado.

E é mesmo! Temos muitas vantagens, claro, seria louca de não assumir isso. Por exemplo, estamos em dia com todos os lançamentos, pois temos o privilégio de abrir as caixas e ler as orelhas de todos os lançamentos recebidos das grandes editoras do país. Podemos escolher com calma o livro que vamos comprar para ler e ainda temos desconto por sermos funcionários - nada mais justo, pois precisamos nos abastecer de leituras para fazer negócios. Às vezes as editoras enviam cortesia de livros, algo que acontece pouco hoje em dia. 

Muitas vezes tento me colocar no lugar das pessoas para saber como elas imaginam uma livraria, pois não entendo de onde vem a ideia romântica de que ali se trabalha lendo e de que se pode viver de livros dando desconto. Para as livrarias de rede, talvez não faça diferença, mas para as pequenas, sobreviver é uma batalha. Como qualquer outro negócio, vendemos um produto nobre, atendemos de forma personalizada. Isso dá trabalho, mas faz parte do jogo. Colocar o livro como um produto não é desmerecer seu lugar no mundo. Tal como cinema, teatro, o livro tem um valor, carrega em si experiências humanas com alcance espetacular, pois pode transformar vidas. Por que não pagar por isso tal como compramos ingresso para cinema, teatro, show?

Mas sem dúvida, esse tipo de pergunta, a que inicia este texto, diminuiu bastante. Hoje, a maioria das pessoas sabe que manter uma pequena livraria não é fácil - sobre as livrarias mega e de rede eu não posso dizer grandes coisas, nunca trabalhei numa, tive essa sorte. E dão valor ao livro impresso, mesmo que também  leiam em tablets, kindles e outros suportes de texto. Mas essa é uma outra história... 



Leituras do Carnaval


Terminei Os Anos de Fartura - China 2013, que passou a frente de todos os títulos da pilha de livros. Muito bom! Retomei A Visita Cruel do Tempo. Finalmente cheguei às páginas com apresentações em PPT. Estou gostando bastante do livro. Adorei a Lulu, personagem que aparece no capítulo 8.

19 de fevereiro de 2012

Livros e Interiores (2)


Carretel de cabeamento e rodízios.
Fácil fácil de fazer.
Os livros agradecem o espaço ;o)

17 de fevereiro de 2012

Dia Internacional dos Gatos


Hoje é o Dia Internacional dos Gatos. Muitos gatos pelo mundo precisam de socorro, de casa, de alimento. Aqui em nossa cidade, podemos ajudar alguns projetos com doação de ração, medicamentos, auxílio veterinário, voluntariado. Eu recomendo Gatos Campo de Santana e os Gatos Do Tijolinho (estão no meu Facebook) - a sua ajuda fará toda a diferença! Fazer o BEM é tudo de BOM Om Om Om. Se quiser ajudar e não sabe como, deixe uma mensagem aqui nos Comentários!

16 de fevereiro de 2012

Histórias de Livreiros (3)


Não importa em qual livraria estamos, seja a mais bonita do mundo, a menor da cidade, a mais charmosa, a mais midiática, o importante é ser bem recebido quando entramos no Templo. Para receber os leitores, é importantíssimo ter livreiros afáveis e educados - estes também precisam seguir um protocolo de boas maneiras. Ao entrar o leitor na livraria, é importante olhar seus olhos para que seja feito o primeiro contato entre cúmplices...os cúmplices da leitura. Como dizia a minha avó, sempre dar Bom Dia, Boa Tarde ou Boa Noite - isso é educação, antes de mais nada. O livreiro deve estar sempre em prontidão para quando o cliente precisar - a gente não precisa ficar cercando o leitor, deixe-o viajar pela livraria para que ele tenha seus momentos com os livros. Muitas vezes não é o leitor que escolhe o livro, mas o livro que surge para ele. Reparem, isso acontece mesmo! O livreiro deve manter-se informado, saber das exposições que estão na cidade, os livros que viraram filme e estão em cartaz (assim como as peças de teatro), estudar as datas comemorativas de escritores, acompanhar os eventos literários e quais escritores estão envolvidos (Bienal e FLIP, por exemplo), ler os suplementes literários nacional e os principais do estrangeiro - por exemplo, não deixe de consultar o The New York Times Book Review, The New Yorker, Le Figaro, Clarín e por aí vai. Dizer que deve estar a par dos lançamentos que estão na mesa nem se fala, isso é default, imprescindível. Já vi muito livreiro corar por não ter lido sequer um sucesso do momento - isso é a morte...do livreiro, seu prestígio cai por terra. Outra coisa, nada de lamentos sobre o estoque da livraria, sobre a consignação devolvida, se alguém esqueceu disso ou daquilo, cliente não tem nada a ver com isso, nem quer saber. Mantenha a discrição! Eu tenho um pouco de TOC, estou sempre passando as mãos nos livros e arrumando, pois livraria bagunçada é o fim da picada, convenhamos! No final das contas, importante sempre é ser autêntico e leal com o leitor, pois este confia em nós quando pergunta pela nossa sugestão de leitura e não há nada pior do que trair essa confiança. Uma coisa que muitos esquecem, e que é ainda mais importante, ser amigo dos livros e tratá-los com respeito, não desmerecê-los. Todo o livro tem uma história para contar e um leitor que ficará agradecido por ouvi-la, portanto, livreiros,  trabalhem com o livro e não contra ela, não importa se é caro ou não, se a capa é feia ou bonita, se o papel é assim ou assado, o que importa é o texto. 

Não esqueça, cliente/leitor há de todos os jeitos, mas livreiro mal educado e estúpido ninguém merece...

Na próxima semana vou falar para vocês sobre aquela frase que todo, mas todo cliente de livraria diz: "quem trabalha em livraria lê o dia inteiro né?" É, vou contar como é...

13 de fevereiro de 2012

Leitura para a vida: Clube dos Sobreviventes


"Mais do que um apanhando de casos e curiosidades, Clube dos Sobreviventes é uma exploração inusitada sobre a natureza da sobrevivência, a força do ser humano e como cada indivíduo pode usar seus dons naturais para maximizar a chance de sair ileso de situações catastróficas".


Já está na pilha e comecei a lê-lo, assim como avancei na leitura de A Visita Cruel do Tempo (Pulitzer 2011). 

12 de fevereiro de 2012

Entrevista com Chan Koonchung

A Literatura Chinesa hoje

Fora os contos chineses que minha mãe desde cedo nos apresentou em casa, a literatura chinesa para mim sempre se caracterizou pelos relatos de escritores residentes no ocidente, que mais falavam da repressão nos tempos de Mao e das diferenças entre orientais e ocidentais. 

Por exemplo, quem não se lembra da leitura de Cisnes Selvagens, de Jung Chang, que inclusive esteve no Brasil para lançar o livro na Casa de Cultura Laura Alvim - eu fui lá! Ou do Clube da Felicidade e da Sorte, de Amy Tan, que inclusive virou filme? Mostram uma China de outro tempo. 

Com As Boas Mulheres da China, de Xinran, passamos a ter relatos de uma China mais contemporânea em contraste com sua herança cultural e histórica, uma China que os jornais e os livros não mostravam. Já podíamos notar uma variante na literatura chinesa que nos chegava. É claro que podemos falar de muitos outros títulos, mas estes mencionados acho que se destacam pelo alcance de grande público em todo o mundo. 

Confesso que tenho uma grande resistência aos chineses - os contos conhecidos na infância eram terríveis e o fato de comerem cachorro e outros bichos também não me deixaram escolha. A resistência permanece, mas li recentemente e recomendei aqui o romance A Cozinha da Revolução, de Ma Jian, que mostra a China após o período Mao. Do mesmo autor foi publicado Pequim em Coma, que ainda não li. 

Agora chega uma outra China com o lançamento de Os Anos de Fartura - China 2013, de Chan Koonchung - proibido na China, claro! A nova China, senhora da economia mundial, a superpotência...do consumo. A China desigual lembra qualquer país em desenvolvimento, seu abismo está na assustadora  produção de bens de consumo e uma abismo que separa aqueles que podem consumir daqueles que não possuem direito ao consumo. Já vimos isso antes também na literatura indiana recente, flagrante por exemplo no livro O Tigre Branco, de Aravind Adiga. 

Ainda não li a China 2013, é meu próximo na lista de leitura, mas  aposto no autor e no livro. Em breve aqui no Lector in Fabula.


Para enriquecer esta leitura, recomendo:

11 de fevereiro de 2012

Acabei de ler O Cemitério de Praga



Vamos dizer a verdade, ler Umberto Eco não é uma missão tão simples assim. Sua leitura consome tempo e atenção, não deve ser lido por impacientes. Além de ter um tempo particular, suas tramas são sofisticadas, não herméticas. Consigo ler pela primeira vez o mestre cujo nome do livro roubei para dar nome a este blog: Lector in Fabula. Três personagens guiam nossa leitura por este diário que inclui documentos históricos falsificados - essa é a tese do livro - : Simonini, o narrador e Dalla Picolla. Além destes três, aparecem inúmeros outros personagens como Dr. Froide, Dr. Charcot, Alexandre Dumas, Alfred Dreyfus. Num clima de espionagem e contra-espionagem, complôs, assassinatos, fraudes e outras falcatruas, os dois personagens principais, Simonini e Dalla Picolla , conduzem a leitura por páginas de diários - há um mapa no final do livro que pode ajudar. Cada um deles crê que o outro é impostor de si...dá para entender? Enfim, a narrativa corre com fatos históricos que envolvem maçonaria, ritos satânicos e documentos antissemitas que incluem Os Protocolos dos Sábios do Sião. Permeando a correria dos fatos, há descrições de jantares (essa parte eu gostei). Para os apressados, aviso: O Cemitério de Praga só aparece por volta da página 200, portanto, resistam na leitura. Em alguns momentos, parece que Eco faz graça, por exemplo, no início do livro, o personagem fala mal dos alemães, dos italianos, dos franceses, dos jesuítas e dos judeus, claro. Chega a ser engraçado como fala mal de todo mundo, não resta ninguém na humanidade que mereça uma nota positiva. Há um momento em que um falsário passa a perna em nosso Simonini, e essa é uma pequena vingança a ser apreciada pelo leitor, já que Simonini parece ser sempre tão esperto. Da metade para o final, a descrição frenética de fatos, na verdade uma verborragia, leva à uma verdade, só quem lê saberá o que precisa ser descoberto. É preciso ter fôlego, mas vale a pena! Boa leitura!


10 de fevereiro de 2012

Histórias de Livreiros (2)

Livros e pessoas...
Ao entrar dou-lhe com um sorriso
- "Bom dia!"
- ...
- Penso comigo mesma, pois se a palavra é prata, o silêncio é de ouro, "não dormiu comigo, mas tudo bem."
Ao sair dou-lhe com um sorriso
-"Bom dia!"
- ...

Reparei que de uns tempos para cá as pessoas já não se cumprimentam mais. Não que eu seja uma figura de importância, mas a educação vale para todos. Tenho vontade de dizer, da mesma forma como dizem os espanhóis, "vá com Deus e o Diabo que te carregue!" Mas não há de se guardar rancor.

Outros cumprimentam, como deve ser o protocolo, e desatam a falar da vida, da sogra, dos filhos, da economia, da vida passada, opaaa, quando chega no assunto política é melhor procurar o que fazer e pedir licença ao cliente, pois o final poderá ser trágico. Se não tiver como se desvencilhar, lembre-se sempre de fazer a cara de paisagem, por mais absurdo que seja aquilo que o cliente diz.

Outro dia, um rapaz entrou e queria saber tudo sobre arte contemporânea estrangeira: européia e americana. Hummm. Conheço bem o acervo da livraria, que naquele momento estava desfalcado, afinal, assim ficamos após o Natal, todo livreiro sabe disso. Tive que consultar um a um os artistas e mostrar o estoque zerado para que o jovem não pensasse que era má vontade. Depois de uma hora de consulta, agradeceu. Ufa! Mas pelo lado positivo, sempre há, tive uma aula de arte contemporânea grátis :o)

Tem aquele cliente que acha que sabe de tudo, quer dar aulas para a gente, aquele fazendeiro que vem de vez em quando à cidade e precisa demonstrar que não perdeu o saber. Sabe de uma coisa, esse, em geral, perdeu toda a educação. Tenho visto isso aos montes. Nossos antigos clientes acabam ficando tão íntimos, que também perdem a linha conosco. Mas somos discretos e vestimos a mesma cara de paisagem de sempre. Tudo pela causa!

Apesar dos pesares, digo sempre aos meus colegas de livros, seja de qual livraria for: "levantem suas mãos para os céus, podia ser muito pior. Imaginem as moças que precisam vender roupas, sapatos, devem cortar um dobrado!"

Mas pensando bem, podiam reeditar o Livro de Etiquetas de Amy Vanderbilt, deve haver lá um capítulo dedicado a como se comportar em livrarias. Se não houver, deveriam escrever!

Na próxima semana tem+

6 de fevereiro de 2012

4 de fevereiro de 2012

Histórias de Livreiros (1)

(Foto Nelida Capela - Livraria Timbre - RJ)

"A capa é rosa, eu não sei o título, nem o nome do autor muito menos a editora..."
"Eu quero o livro que foi no Jô da semana passada..."
"Saiu no Caderno de Literatura do O Globo, eu tenho certeza..."
"Eu comprei aqui outro dia...ou foi na..."

Não possuímos bola de cristal, mas assim mesmo tentamos adivinhar, afinal,somos livreiros.

Lidar com seres humanos não é fácil, todos que trabalham com serviço têm a mesma percepção, mas lidar com público de livros é algo espetacularmente diferente. Desenvolvemos a arte do ilusionismo e da adivinhação.

Adivinhamos títulos, escritores, editoras e histórias. Tentamos achar o livro certo para cada tipo de leitor que adentra nosso espaço. Subimos ao palco para contar a história deste ou daquele livro e olhamos nos olhos do nosso cliente com muita fé, porque se não tivermos fé no livro, o cliente não leva! 

Tudo isso com muito bom humor e amor...ao mundo da literatura. Nem sempre é assim, mas os casos mais extremos de indelicadeza a gente esquece, não adianta guardar rancor. O segredo é mudar a vibe - isso só aprendi depois de 10 anos de mercado, com a minha mestra dos livros, a Kiki, da Livraria Timbre. 

Algumas vezes, a bola de cristal embaça e ficamos vendidos. Outras vezes os livros escondem-se da gente na hora que mais necessitamos deles, "o sistema diz que tem um na loja!", o outro responde "não temos mais..." - já vi isso acontecer na Atheneo (Argentina) e na StrandBooks (Estados Unidos), por que não aconteceria aqui? Acontece. Se um ainda não aconteceu, pode escrever,  vai acontecer, é maldição de livraria.

E quando dá o branco total...mico!!!! E quando o livro torna-se uma cobra que quase morde? Outro mico. E quando o leitor dá a referência completa e você não sabe...porque não leu o jornal ou porque simplesmente é humano e erra?

Todo tipo de coisa acontece numa livraria. Cada livreiro tem a sua história. Mas o bom é o seguinte, adoramos fazer o que fazemos: levar livros para as pessoas. E não pergunte se damos desconto, hein, a gente corta um dobrado para sobreviver num mercado de grandes e pequenas livrarias. Mas amamos a nossa arte, temos o papel, a tinta e as histórias no nosso sangue.

Então...vai ler o que hoje?

(Na próxima semana tem+)